DIÁRIO DE SANGUE

Este é o registro oculto das noites vividas pelos Membros. Cada entrada abaixo é um eco de suas ações, escolhas e pesadelos que caminham ao lado deles.

Sessão 7 - O Último Vôo de Ícaro

A noite tombava sobre Belo Horizonte com o peso de um manto espesso, saturado de veludo e silêncio. A cidade respirava em sombras, e cada luz distante parecia apenas um suspiro hesitante diante da escuridão que a envolvia.

Na sala reservada dos Ventrue, o ar era denso de poder e memórias antigas. Sebastian, de postura impecável, estava diante de rostos que traziam séculos em seus olhares — Arnaldo, sempre com o sorriso que nunca revelava tudo; e outros, vindos de São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília. Um tribunal não de acusações, mas de máscaras. Ali, cada palavra era medida como vinho derramado em taças de cristal. E no coração dessa encenação, Arnaldo tecia, com fios invisíveis, intenções que a superfície jamais revelaria.


Seguindo as orientações do Senescal, Sebastian nada escondeu. E assim, como um julgamento anunciado antes de começar, foi inocentado. Ao término, Arnaldo e seus pares seguiram para encontrar Doralice, levando consigo a brisa fria de um acordo prestes a florescer.


Longe dali, Papus caminhava pelas sendas mais secretas da noite. Seus passos o conduziram até a Princesa, com quem falou sobre o Matusalém que todos fingiam ser apenas mito. Ela confirmou a verdade com a serenidade de quem guarda segredos maiores, e afirmou que a Camarilla não apenas apoiaria, mas apressaria a criação da Capela Tremere de Belo Horizonte. Locais já estavam sendo sondados; mãos invisíveis já preparavam o palco para a obra.


Margot, por sua vez, regressou ao refúgio para encontrar o silêncio onde antes havia presença. Ícaro partira, deixando apenas uma carta, escrita com o peso de quem deseja liberdade mais do que segurança. Renunciava à vida de Harpia, à função de “olhos da Camarilla”. Falava de independência como quem fala de um horizonte inalcançável, e ao final, deixava sua gratidão eterna, assinada com o selo discreto de sua cortesia.


Também ela encontrou-se com Doralice naquela noite. Revelou-lhe as ambições do jovem Sebastian, e a Princesa, curiosamente, não se perturbou. Havia no olhar da Lasombra a percepção de correntes mais profundas. Antes de deixá-la, Doralice pediu que Margot e os demais apoiassem Ferrugem na caça ao Maestro — um pedido que soou como ordem.


Enquanto isso, Papus aguardava a saída de Arnaldo de uma reunião cercada de figuras poderosas. O Senescal emergiu com a satisfação velada de quem moveu uma peça decisiva. Doralice havia cedido. O Conselho de Primogênitos se ergueria. Papus, embora indicado para ser o representante Tremere, cederia o lugar à Mirela, a Bruxa Vermelha — pois seu destino já se entrelaçava ao de liderar a Capela recém-prometida.


Mirela, porém, enfrentava um infortúnio insólito. Um odor pútrido, denso e invasivo, subia de todos os encanamentos do condomínio. Profissionais humanos tentavam, em vão, restaurar a ordem. Com o sangue chamando o invisível, ela encontrou o culpado: um Pooka, fada de riso ferino e humor cruel. Ele acusou-a de desprezar o presente — os cristais — e decidiu marcá-la com seu deboche.


Valdeck, em outra parte da cidade, buscava o conselho do velho cacique, seu touchstone. Entre delírios e murmúrios, havia mensagens que soavam como presságios feéricos. O Gangrel decidiu encontrar-se com Mirela. Reuniram-se no Maletta, onde conversas se perdiam no burburinho noturno. Foi ali que uma pequena esfera, do tamanho de uma bola de tênis, rolou sob a mesa, carregando consigo uma magia insidiosa. As cadeiras tornaram-se prisões, e uma batalha de vontades começou. O tempo corria; o sol, implacável, poderia ser seu carrasco.


Foi então que uma mulher surgiu, observando-os com a frieza de um predador. A morte poderia vir por suas mãos, ou pela luz. Mirela, porém, libertou-se pela força de sua feitiçaria do sangue, forçando a intrusa a atirar-se da sacada. O corpo caiu, e o feitiço, rompido, libertou-os.


Margot chegou pouco depois, e então Ícaro apareceu. Havia nele uma leveza estranha, um ar quase humano. Ao examinar uma das balas que ferira Valdeck, identificou nela um preparo mortal — óleo e cinzas ungindo o metal. Disse poder criar um unguento capaz de torná-los resistentes, transformar o dano agravado em letal. Pediu que o encontrassem na noite seguinte em seu refúgio, como retribuição à hospitalidade de Margot.


Na noite seguinte, foram até ele. Mas ao cruzarem a soleira, ouviram o som que se tornara presságio. No chão, o corpo de Ícaro jazia despedaçado, a elegância perdida para sempre. Ao lado, uma caixinha de som barata repetia, com melodia cruel e perfeita, Every Breath You Take. E assim, o último voo de Ícaro encontrou seu fim — não no sol que arde, mas nas sombras que devoram.

← Voltar para a página inicial